Entrevista a Maurício Castro no Sermos Galiza nos 200 anos de Karl Marx

Num contexto marcado pola predomináncia de discursos pós-modernos que o dam por superado e amortizado, a tua aposta é precisamente reivindicar a vigência do pensamento marxista. Porquê?

Nom se trata só da vigência entendida no plano teórico ou académico, mas sobretodo da sua recuperaçom por parte da esquerda como ferramenta imprescindível para compreender o que acontece ao nosso redor.

A esquerda julga hoje que nom cabem grandes projetos, nem grandes pretensons em relaçom a um mundo totalmente hegemonizado polo capital. Também se apresenta como fracasso o papel da esquerda marxista nos processos revolucionários que encabeçou no século XX. No melhor dos casos, defende-se a distribuiçom da renda e políticas fiscais compensatórias para os setores mais desfavorecidos, tentando reduzir os terríveis e inevitáveis efeitos do capital em açom; quer dizer, o programa social-democrata.

Daí a necessidade de voltar a Marx, e nom como leitura, mas como estudo, sem abandonar a atitude crítica que ele sempre reivindicou, pois mantém o seu potêncial transformador intacto e, sem ele, o capitalismo torna incompreensível.

Tés afirmado que as análises originais do próprio Marx som mais úteis para compreender o funcionamento atual do capitalismo do que os novos discursos da social-democracia e da esquerda “pós-moderna”. É assi?

Mas nom porque Marx fosse adivinho ou infalível. O seu estudo, a partir do método científico, pujo em evidência as legalidades internas do capitalismo como sistema histórico. E nós estamos, de facto, ainda nesse sistema, cuja forma de reproduçom sociometabólica nom variou substancialmente.

A produçom continua orientada para o lucro e nom para as necessidades sociais; todas as relaçons sociais estám subordinadas ao mercado de compra e venda privada de mercadorias; a valorizaçom do capital mediante a exploraçom da classe que vende a sua força de trabalho é umha necessidade permanente; o tempo de trabalho continua a ser a medida do valor, base do capital; a tendência à acumulaçom e centralizaçom dos capitais mantém-se; o avanço tecnológico leva à reduçom do custo unitário das mercadorias e, por essa via, ao aumento da massa total de valor, contraditória com umha taxa de lucro tendencialmente decrescente, expressom inevitável das crises periódicas; o acúmulo de populaçom desempregada é ainda o recurso permanente para reduzir o custo da força de trabalho; a mundializaçom do mercado era um facto já no inicio do século XX e nom parou… Essas marcas acompanham o capital desde o seu surgimento histórico e também fenómenos atuais, como as crises, a precarizaçom, a chamada uberizaçom, as patentes, ou as diversas opressons. Compreendendo a crítica marxista da economia política, compreendemos muitas das que julgamos serem novidades do nosso tempo, e que já fôrom analisadas na obra de Marx.

Face à leitura clásica da estrutura de classes, tenhem emergido novas categorizaçons, desde as “clases médias” até a conceçom do “precariado” como novo sujeito. Que opinas?

O capitalismo baseia-se na produçom para o lucro, que é apropriado polos proprietários dos meios de produçom. A compra de força de trabalho permite-lhes extrair umha parte crescente do valor que ela produz e assi reproduzir o capital de forma ampliada. É daí que nasce a contradiçom do capitalista com quem produz toda a riqueza social, dando à classe trabalhadora a condiçom de sujeito revolucionário.

Sem classe operária, nom há capital. Nem o seu número nem o seu salário fundam a condiçom de classe: é a sua funçom como vendedora de força de trabalho que a funda. O que hoje se chama “precariado” é um segmento dessa classe, cujas condiçons de subsistência ficárom em risco físico, por receber salários tam baixos que dificultam a sua reproduçom vital. Mas isso nom é novo: acontece quando se incrementa a “populaçom excedente”, permitindo aos capitalistas pagar salários mais e mais reduzidos.

Quanto às chamadas classes médias, na verdade som parte da classe trabalhadora, pois elas vivem da venda da sua força de trabalho, nom sendo proprietárias de meios de produçom. A sua classificaçom responde a critérios salariais ou de falsa consciência. A ideologia dominante conseguiu fragmentar a classe com esse tipo de tretas, dificultando a extensom da consciência de classe e a possibilidade de empancipaçom coletiva.

A cavalo da chamada indústria 4.0 e do avanço da tecnificaçom e robotizaçom do trabalho, há vozes que ponhem em questom a centralidade do trabalho numha perspectiva pós-operária…

A mecanizaçom e tecnificaçom som umha constante histórica. Acompanham o desenvolvimento das forças produtivas, expulsam força de trabalho e levam à crise de sobreproduçom. A saída foi sempre o incremento da exploraçom para compensar a perda do valor unitário da mercadoria no processo de concorrência entre capitais. Porém, nengumha dessas “revoluçons tecnológicas” modificou o essencial: é a força de trabalho humana que cria valor. Também ela fabrica toda a maquinaria e os robôs, que por sua vez aumentam a produtividade e reproduzem as crises.

Assi, a maquinaria leva ao aumento da escala produtiva e à reduçom de concorrentes (acumulaçom e centralizaçom), mas nom da concorrência. Isso obriga a procurar um aumento, através da exploraçom, da mais-valia absoluta e relativa. Repare-se que, crise após crise, esse desenvolvimento fenomenal das forças produtivas que expressa a chamada “robotizaçom” aproxima mais o capitalismo do seu final histórico, pois torna cada vez mais complicado o processo de reproduçom ampliada de capital, sem o qual deixa de ser viável. Além disso, a crescente socializaçom da produçom, pola sua grande escala, evidencia a irracionalidade da propriedade privada dos meios de produçom em cada vez menos maos. Isso aproxima-nos, objetivamente, do socialismo. Porém, a superaçom do atual modo de produçom nom é automática nem inevitável, dependendo de que a classe trabalhadora assuma a sua funçom histórica e proceda a expropriar esses grandes proprietários, socializando a propriedade e pondo a produçom ao serviço das necessidades humanas e nom do lucro.

Face à recorrente denúncia da pobreza, o empobrecimento e a desigualdade a causa da falta de redistribuçom da riqueza, contrapós a denúncia da exploraçom. Do ponto de vista social, que há de diferente entre ambas perspectivas?

Chama a atençom que todo o tipo de instituiçons (públicas, privadas, religiosas, ONGs, liberais…) fam campanhas contra a pobreza. Ser contra a pobreza é aspirar a compensar os efeitos da desigualdade intrínseca ao sistema capitalista. Quem nom vai concordar com isso? Ora, Marx tentou sempre ir além da análise moral dos efeitos do sistema, criticando os mecanismos que os originam. O atual modo de produçom baseia-se na desigualdade entre proprietários de meios de produçom e proprietários de força de trabalho. É a partir daí que se ativa a exploraçom dos primeiros sobre os segundos. Essa é a relaçom objetiva fundante do sistema, cuja forma jurídica é a relaçom salarial. Umha relaçom “livre” em que só um dos participantes, o proprietário da força de trabalho, tem que vendê-la ou morrer de fame.

A luita polos salários, proteçom no desemprego, pensons… som luitas imprescindíveis! Porém, nom resolvem o problema de fundo, que nom está na esfera da distribuiçom da riqueza e si na esfera da produçom e das relaçons em que ela se baseia. É a esfera produtiva que deve ser democratizada, mediante a socializaçom da propriedade. Agora está na moda, por exemplo, a reivindicaçom das “rendas de cidadania”. Mas repare-se no alcance que teria a luita pola reduçom da jornada laboral com manutençom dos salários. Ela incidiria no questionamento dos lucros empresariais, exercendo assi um labor pedagógico fundamental na autoconsciência da classe trabalhadora.

Um dos planos em que se fai mais evidente que o capital tem ganho posiçons é no ámbito ideológico. Hoje o discurso dominante é abafantemente dominante. Como revertê-lo?

Acho que o que comentas tem relaçom com vários factos inegáveis. Primeiro, parece evidente que o capitalismo tinha mais percurso histórico do esperado por Marx. Mais tarde, a ausência de vitórias revolucionárias em países do centro capitalista marcou um desenvolvimento histórico inesperado, em países economicamente atrasados e dependentes. Aqueles processos de transiçom socialista fôrom derrotados e seguiu-se umha derrota ideológica sem precedentes na esquerda, que deu passagem ao pós-modernismo como complemento ideológico ideal para o capitalismo neoliberal. Estamos aí e a saída passa pola luita ideológica: a centralidade da classe trabalhadora e a unidade em torno de um projeto de transformaçom global que marque a viabilidade do projeto comunista. As condiçons objetivas nom vam faltar nos próximos anos e, se algo nos ensinou a história foi que a a vitória está em saber aproveitar as crises catastróficas quando acontecem. Se nom houver organizaçom e programa revolucionário preparados para as oportunidades que virám, o capitalismo vai manter-se ou degenerar em algo pior…

De que maneira tem contribuído o marxismo para os processos emancipatórios, em chave anticolonial e de libertaçom nacional.

O assunto é suficientemente amplo e controverso para nom poder resolver-se numhas poucas linhas. Quanto à posiçom de Marx, ele evoluiu para posiçons progressivamente mais favoráveis às luitas de libertaçom nacional. O caso irlandês é o que melhor reflete essa evoluçom, pois passou de fazer depender a sua libertaçom da revoluçom inglesa a fazer depender a revoluçom inglesa da vitória independentista irlandesa.

É verdade que o tema nacional nom está abordado em profundidade na sua obra, mas longe das caricaturas sobre umha eventual dissoluçom das nacionalidades no socialismo, Marx defendeu os direitos dos povos. Na sua correspondência, figura, por exemplo, umha burla dirigida a setores franceses da Internacional que confundiam a “aboliçom das nacionalidades” com a “absorçom” delas por parte da “exemplar naçom francesa”.

Já sobre a influência do marxismo nas luitas de libertaçom nacional do século XX nom é preciso insistir, pois é um facto bem conhecido.

Entrevista de Xabier P. Igrexas a Maurício Castro no especial ‘A Fondo. A vixencia de Marx’. Sermos Galiza nº 296. 16 de maio de 2018.

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