Esquema do Tema I: Sobre o Método de Marx

Galiza em Rede. Plano de Formaçom 2018

Esquema do Tema I: Sobre o Método de Marx

A questom do método é umha das mais polémicas e centrais na aproximaçom à teoria social, dai a necessidade de esclarecimento metodológico. Cada aproximaçom responde a umha tendência com base também filosófica. Por exemplo, Durkhein e Weber, primeiros sociólogos, abordam a questom social a partir do positivismo e do neokantismo, respetivamente.

No caso de Marx, a complexidade do seu método, nunca teoricamente exposto de maneira extensa por ele próprio, a sua enorme influência levou a desvios de tipo positivista (Plekhanov, Kautsky e a II Internacional) e neopositivistas (manualismo oficial soviético).

Já o chamado fatorialismo (que analisa a sociedade a partir de fatores, com prioridade para o económico sobre o cultural, o social…) ou mesmo o monocausalismo económico (acusaçom weberiana contra o materialismo marxista), som algumhas acusaçons contra o método de Marx. Também o (pré)determinismo ou teleologia histórica. Todas elas som versons existentes em diversas escolas do marxismo, que contradim o princípio da totalidade como perspetiva de Karl Marx na abordagem metodológica da realidade social.

A trajetória teórica de Marx inicia-se em 1841, aos 23 anos, em que confronta o hegelianismo a partir de posiçons materialistas próximas de Feuerbach, mas indo mais longe. Som desta época: ‘Para a questom judaica’ e a ‘Crítica da filosofia do direito de Hegel’.

Em 1844, conhece Engels e começa a estudar a Economia Política inglesa e escocesa. Nesse ano, escreve também os ‘Manuscritos Histórico-Filosóficos’.

Apontam-se três fontes ou linhas de força na sua formaçom: filosofia alemá (Hegel), socialismo utópico francês (Owen, Fourier…) e a economia política escocesa e inglesa (Smith, Ricardo…). Nom fijo tábula rasa, partindo do seu estudo crítico para a sua superaçom.

Demora 15 anos a explicitar as bases do seu método, em 1857, na ‘Introduçom à Contribuiçom para a Crítica da economia política’. Parte do exame racional, explicitando os fundamentos, condicionamentos e limites, mediante o contraste ou verificaçom com a história real de cada teória sob estudo e/ou elaboraçom.

Nom é um simples empirista nem positivista, nem fica no jogo discursivo como hoje fai o pós-modernismo. Para ele, o conhecimento teórico é o conhecimento do objeto, da sua estrutura e dinámica, tentando deixar fora os desejos e aspiraçons do pesquisador ou estudioso. Trata-se da reproduçom ideal do movimento real do objeto, tal como é captado e analisado polo pesquisador.

Ao invés de Hegel, onde o ideal (essência) criava o real (fenómeno), em Marx é o real (essência histórica em movimento) que cria o ideal, como interpretaçom transposta à cabeça do pesquisador.

Contodo, reproduçom nom é reflexo mecánico. O papel do sujeito é ativo, à procura da essência, indo além da aparência ou do fenómeno, tentando atingir o processo essencial. Captar a matéria, analisar as formas que adota e analisar o desenvolvimento e as conexons que se estabelecem.

Para isso, recorre a instrumentos e técnicas, que servem ao método, mas que nom som o método, pois elas poderiam servir a métodos diversos.

Quanto às conclusons, elas som sempre provisórias.

Distingue investigaçom de exposiçom. Na primeira, parte-se de perguntas, enquanto na segunda se parte dos resultados da primeira.

Marx nom divaga sobre “como conhecer” em abstrato. Fala de “como conhecer um objeto real e determinado”. Daí partirá Lenine para a sua célebre “análise concreta da situaçom concreta”.

Mais do que umha ciência geral da lógica, Marx interessa-se pola lógica de um objeto determinado, no seu caso o capital. Daí que podamos falar da lógica do capital legada por Marx, nom de umha lógica geral que poda servir para todo.

Esquema histórico de formaçom do método de Marx

1840 > Primeiras formulaçons teórico-metodológicas, sob influência de Feuerbach.

1843 > Crítica de Hegel

1844 > Transita da crítica filosófica para a crítica da economia política. ‘Manuscritos económico-filosóficos’. Incorpora a dialética.

1845 > ‘A Sagrada Família e a crítica da crítica crítica. Rompe com a esquerda hegeliana. A Ideologia Alemá. Afirma querer analisar a vida real de pessoas reais em açom, e nom sobre o que dixérom ou as suas ideias. O ser social como processo dinámico e contraditório. O mundo real nom é um conjunto de cousas, mas um conjunto de processos. O mundo está sujeito a mudanças e a leis internas.

1847 > ‘Miséria da Filosofia’: primeiro texto dedicado à crítica da economia política. A sociedade é o produto da açom recíproca das pessoas. A um desenvolvimento das faculdades produtivas, corresponde umha sociedade civil. A umha sociedade civil, corresponde um Estado político, expressom oficial da sociedade civil. As forças produtivas som herdadas, nom escolhidas. “As categorais económicas som expressons teóricas, abstraçons das relaçons sociais de produçom”. “As relaçons de produçom constituem um todo”.

1850 > Exílio londrino.

1852 > Começa o estudo intenso da sociedade burguesa, a que dedicará o resto da sua vida.

1857 > “Introduçom” onde define a sua conceçom teórico-metodológica. A produçom confere unidade à história humana. Porém, unidade nom é identidade. Há determinaçons comuns e outras específicas de cada época histórica. O modo como se produz a riqueza material funda cada época (incluindo produçom, circulaçom, troca, consumo).

A realidade é um complexo de totalidades, todas complexas e umhas mais determinantes do que outras. Por exemplo, a produçom é mais determinante do que o consumo.

> Daí tiramos conclusons atuais como a inviabilidade das saídas distribucionalistas ou de ‘consumo responsável’ como supostas alternativas ao capital, sendo imprescindível mudar a forma como se produz e reproduz a sociedade.

Cada complexo tem a sua legalidade que o rege (as leis tendenciais). Isto articula os complexos, que nom som amorfos. Cada complexo deve ser estudado na sua legalidade própria e na sua articulaçom com os restantes complexos, formando todos eles umha totalidade dinámica e contraditória. As relaçons costumam ser mediadas, nom diretas.

Reflexom sobre a utilidade do método de Marx para a militáncia comunista na Galiza

O recurso ao método de Marx supom nom apenas o seu estudo crítico, mas a adoçom dum roteiro pola dinámica global do sujeito de estudo, no nosso caso, a formaçom social e as dinámicas das luitas de classes na Galiza, a partir do conhecimento do modo de produçom capitalista como um todo, combinado com a devida análise particular do nosso tempo e do nosso espaço nacional de luita.

O estudo concreto deve permitir detetar e formular as mediaçons que ligam as tendências e características gerais do capitalismo atual com as circunstáncias concretas no nosso país. Desde as macrotendências até o dia a dia. Devemos acompanhar a atualidade, estudar aspetos teóricos e ver como a realidade se transforma, em que direçom e como é possível incidir nela ao nível de classe e de movimento.

Deveremos evitar ao mesmo tempo ficar na exposiçom de um positivismo acrítico e num idealismo especulativo fechado em si mesmo, incapaz de sistematizar um plano de atuaçom verificável em funçom da análise concreta da realidade concreta.

O método aplica-se em ascenso do particular para o geral, sem antecipar conclusons nem afirmar aprioristicamente esquemas ideais que podem corresponder a momentos passados da história da nossa formaçom social. Partir da aparência em direçom à essência de cada fenómeno, compreendendo os seus mecanismos e determinaçons profundas (histórico-essenciais) e atuando politicamente a partir delas.

Tal como o ativismo sem estudo e verificaçom teórica é inútil voluntarismo, o estudo fora da realidade dos factos de cada dia fica na pura representaçom, sendo o nosso objetivo nom o conhecimento abstrato, mas a transformaçom revolucionária da realidade.

Marx e o seu método constituem um guia fundamental nesse caminho e estes som os nossos primeiros passos na sua apreensom.

Galiza em Rede

Galiza, maio de 2018.

Bibliografia complementar recomendada

Karl Marx, 1857: Introdução à Crítica da economia política.

José Paulo Netto, 2011: Instrodução ao estudo do Método de Marx.

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