Esquema do Tema III: Trabalho, história e ser social

Galiza em Rede. Plano de Formaçom 2018-2019

Esquema do Tema III: Trabalho, história e ser social

Consideramos, a partir da evidência científica, corretas as teses de Marx e Engels, referentes à centralidade da categoria ‘trabalho’ para a compreensom do fenómeno humano-social.

Partimos da consideraçom do trabalho como a interaçom do ser humano com a natureza, para atender às suas necessidades como espécie. Essa interaçom também existe nos animais, mas neles responde a padrons genéticos, naturais e inalterados.

Dentro do “complexo de complexos” que constitui a natureza, distinguimos a natureza inorgánica ou mineral e a orgánica ou biológica. Dentro desta, o desenvolvimento da capacidade de trabalhar funda o “ser social”, entendido como resultado do “salto ontológico” que, sem abandonar a condiçom de “ser natural”, atribui à nossa espécie umha forma nova de interaçom com a natureza.

O trabalho, entendido nessa aceçom fundante do ser social, caracteriza-se por:

1. Operar de maneira mediada e complexa através de instrumentos.

2. Nom responder a determinaçons genéticas.

3. Atender a um elenco aberto de necessidades.

Todo o anterior explica-se polo carácter histórico, humanista, e dialético do trabalho.

– Histórico, porque, mantendo o seu carácter fundante, muda ao longo da história, em funçom do desenvolvimento (às vezes, estagnamento ou regressom) das forças produtivas.

– Humanista, porque o ser humano se constitui em sujeito e produto da sua própria história, criando novas possibilidades e necessidades de desenvolvimento.

– Dialético, porque o desenvolvimento histórico dessa interaçom constitui um movimento contraditório com umha racionalidade objetiva, imanente, materialista (nom exterior, nom idealista) como parte da realidade.

Dous aspetos do trabalho

O processo de trabalho, de grande complexidade, caracteriza-se por dous aspetos que explicam o seu carácter transformador nom só da natureza, mas também do sujeito: a objetivaçom e a exteriorizaçom.

– A objetivaçom dá lugar a algo novo na natureza, como resultado da interaçom a que vimos referindo-nos. Trabalhamos para originar (objetivar) novas realidades. Podemos entom dizer que a objetivaçom transforma o objeto do trabalho.

– A exteriorizaçom tem efeito na pessoa (e no coletivo) que interage com a natureza, de múltiplas maneiras; algumhas positivas (aprendizagem, destreza, consciência, subjetividade, arte…) e outras negativas (principalmente as diversas formas de alienaçom). Podemos entom dizer que a exteriorizaçom transforma o sujeito do trabalho.

É importante ter em conta que se trata de dous aspetos de umha mesma atividade (o trabalho). Separamo-las com fins analíticos, mas apresentam-se numha unidade dialética na realidade.

História e “afastamento das barreiras naturais”

Existem cada vez mais indícios de que o trabalho caracterizou também outras espécies no passado, para além do homo sapiens sapiens. Isso viria confirmar que a nossa humanidade está determinada nom só pola nossa biologia, embora ela seja imprescindível, pois outras espécies biologicamente diferenciadas (neandertal, homo floresiensis…) podem ter chegado a assumir a condiçom de “ser social”. Achados de instrumentos, objetos simbólicos (culturais) e arte parecem apontar nessa direçom.

A constituiçom da nossa espécie como “ser social” marca o início da sua história, que nom partiria de um “salto biológico”, embora precisasse das condiçons biológicas que o permitissem, mas de um “salto ontológico” que, junto ao trabalho, incluiria outras atividades, com destaque para a linguagem articulada, imprescindível para o trabalho, que deve ser entendido como atividade coletiva.

Quando dizemos que a constituiçom do “ser social” marca o início da sua história, afirmamos que a partir daí se produz um distanciamento da natureza, que Marx chama em diversas ocasions “afastamento das barreiras naturais”. Isso nom significa que o “ser social” deixe de depender do meio natural ou que abandone a sua natureza orgánica e biológica. Significa apenas que acrescenta novas características que lhe som exclusivas, como a de criar novas realidades, até aí inexistentes na natureza, e a sua própria transformaçom enquanto espécie, originando historicamente novas possibilidades e necessidades para além das próprias dos restantes animais (comer, beber, sobreviver…).

No trabalho, o ser humano incorpora umha “antecipaçom ideal” ou finalidade (teleologia), que posteriormente tentará levar à prática, conseguindo-o em parte ou nom no processo de objetivaçom a que acima figemos referência. A interrelaçom entre diferentes finalidades individuais/coletivas e a causalidade que a natureza incorpora, torna a história um processo aberto, embora com legalidades tendenciais, e nom teleológico nem mecánico.

No processo de trabalhar e como produto do mesmo, aumenta o conhecimento (na exteriorizaçom a que também nos referimos acima), exigindo umha coordenaçom múltipla e complexa, de carácter cada vez mais social.

A partir das experiências concretas, o sujeito fai generalizaçons, universalizando os saberes, o que exige um sistema de comunicaçom igualmente complexo: a linguagem articulada. Além de aprendida, ela é condiçom de aprendizagem, pois o trabalho nom é umha atividade isolada do social e exige a coletivizaçom do conhecimento (organizar, distribuir, transmitir…). Nom há aí determinismos orgánicos naturais. É umha atividade plenamente social.

O carácter dialético a que já nos referimos fica claro no tipo de relaçom que o trabalho estabelece entre o ser humano e a natureza. Nom é umha modificaçom unilateral do meio, e si umha “interaçom metabólica”, tal como a define Marx, mediante umha analogia biológica que muito mais tarde virá a ser adotada por algumhas correntes ambientalistas.

Portanto, a reproduçom da sociedade protagonizada polo ser social realiza-se na história, sem deixar de depender da natureza, constituindo umha totalidade inserida num complexo de totalidades (totalidade inorgánica, totalidade orgánica e totalidade social).

Nas sociedades humanas, nom há seres sociais singulares por fora da sociedade. Há sociedade, formada por seres singulares em interaçom e interdependência. O processo de autoconstruçom do ser social é o que conhecemos polo nome de “história”. Na verdade, “história social”, confrontada com a “história natural”, objeto das ciências da natureza.

É partindo dessa compreensom da história que Marx chegou a afirmar n’A Ideologia alemá que “Conhecemos apenas umha única ciência, a ciência da história”.

Quanto à dimensom ideológica, ela acompanha o processo de autoconstruçom da espécie desde a sua constituiçom e ao longo do processo de desenvolvimento histórico (magia, rituais, arte…). Ela surge com o trabalho, como unidade, mas irá distanciando-se ganhando umha autonomia relativa.

Práxis, ser social e alienaçom

Ao longo da história, o enriquecimento do ser social torna-o mais complexo, ficando o trabalho como elemento central, permitindo-lhe:

1. Realizar atividades teleológicas (“com um fim”).

2. Objetivar material e idealmente (objetos, relaçons sociais, filosofia, arte…).

3. Comunicar-se mediante a linguagem articulada.

4. Refletir e ter consciência.

5. Escolher entre alternativas concretas (liberdade).

6. Universalizar-se, para além do singular ou fenoménico.

7. Sociabilizar-se, mediante a interaçom social, transmitindo e aprendendo.

A práxis é a atividade que possibilita essa diversificaçom e enriquecimento da espécie, mediante o controlo e exploraçom da natureza (sujeito-objeto), e através da influência no comportamento social (sujeito-sujeito).

A objetivaçom material dá-se diretamente no trabalho, enquanto a ideológica parte daí, mas ganha umha autonomia relativa (por exemplo, os valores éticos).

A práxis dá ao ser humano um carácter criativo e autoprodutivo, mas também alienante. A alienaçom é própria do ser social desde a sua origem, indo em aumento com o surgimento da divisom social do trabalho e da propriedade privada dos meios de produçom. Quer dizer, com o surgimento da exploraçom.

A alienaçom tem o duplo carácter coletivo-individual, com prioridade para o coletivo, tal como na totalidade de objetivaçons e exteriorizaçons resultantes da práxis social. Na sociedade de classes, a relaçom entre indivíduo e sociedade vai ficando mais complexa, na medida que aumentam as objetivaçons (materiais e ideológicas) e o acesso desigual às mesmas.

A alienaçom mais importante é a existente na própria atividade que humanizou a nossa espécie: o trabalho, já que o converte em atividade desumanizadora. O paroxismo dessa alienaçom produzirá-se no capitalismo, em que o ser humano passa a ser um complemento da máquina, ao serviço da produçom de valor, ficando a utilidade ou valor de uso subordinada ao lucro como objetivo central da atividade alienante do trabalho nas condiçons capitalistas.

Em paralelo, assistimos a umha apropriaçom das objetivaçons crescentemente desigual, originando o individualismo, como justificaçom ideológica dos interesses singulares de umha classe (no capitalismo, a burguesia) frente aos interesses genéricos.

Galiza em Rede

Galiza, agosto de 2018.

Bibliografia complementar recomendada

Karl Marx, 1844. Manuscritos económico-filosóficos.

Karl Marx e Friedrich Engels, 1846. A ideologia alemá.

José Paulo Netto e Marcelo Braz, 2007. Economia Política. Uma introdução crítica.

Sérgio Lessa, 2002. O mundo dos homens. Trabalho e ser social.

Carlos Nelson Coutinho, 1972. O estruturalismo e a miséria da razão.

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