Turistificaçom: umha séria ameaça que já está aí

Nos últimos tempos, os grandes meios de comunicaçom estám a mostrar, como sempre de maneira manipuladora, a reaçom que vem produzindo-se contra a pressom turística em diferentes pontos da Europa.

A massificaçom turística a que assistimos véu imposta por um contexto da crise geral do capital e das suas dificuldades para dar continuidade ao seu processo de acumulaçom

Países Cataláns, Itália, Grécia… movimentos populares em diversas áreas geográficas europeias começam a reagir contra um grave problema que, como todos os que o capitalismo provoca, nom afeta só a economia, mas o conjunto das relaçons sociais.

No quadro de umha forte crise, cujos efeitos se prolongam por mais de umha década, a maioria das populaçons começa a estar consciente de que os tempos do chamado “Estado de Bem-Estar” nom vam voltar. Ao invés, todo indica que o sistema tenta desesperadamente lidar com as profundas contradiçons geradas polo seu próprio desenvolvimento histórico, que conduzem à crescente dificuldade de conseguir a rendabilidade económica, imprescindível para a sua reproduçom.

Na fase atual, em que praticamente todo o que algum dia foi “tempo livre” é incorporado ao “tempo de consumo” imprescindível para alargar a mercantilizaçom de todas as relaçons sociais, o turismo ganha umha nova dimensom. Agora é, cada vez mais, umha atividade diretamente lucrativa para o setor empresarial envolvido, mas também um ingrediente cultural para a modelagem da classe trabalhadora, que deve responder às expetativas que se lhe imponhem como eterna aspirante a “classe média”. O gasto nisso reforça os hábitos de consumo e endividamento, o que ligado ao aumento do desemprego ajuda a baixar o custo da força de trabalho e a aumentar a precariedade laboral.

O desmantelamento das indústrias europeias para serem transferidas a regions do planeta com melhores condiçons para a exploraçom, como o sueste asiático, deixa a Europa, e sobretodo as suas periferias –que tenhem à partida um menor desenvolvimento tecnológico e diversificaçom industrial–, cada vez mais reduzida ao setor dos serviços. Se a isso somarmos os crescentes conflitos sociais e até bélicos em países tradicionalmente dedicados ao turismo (Oriente Médio, Norte de África, América Latina…), isso converteu a atividade turística numha saída empresarial à crise, tam intensivamente explorada que, em cada vez mais lugares, provoca sérios problemas de convivência.

É nesse contexto que devemos situar o processo turistificador que se desenvolve em diferentes países europeus como os indicados e, especialmente, em cidades ou regions com especificidades que lhes conferem algum tipo de atraçom para a exploraçom turística: Amesterdám, Barcelona, Lisboa, Porto… Compostela. Neles, ganham especial relevo fundos de investimento e outros agentes investidores por trás de grandes cadeias hoteleiras e operadores turísticos de carácter multinacional, que aumentam a influência sobre países em que desenvolvem a sua atividade investidora e especuladora.

Comecemos por estabelecer a distinçom entre a atividade turística, entendida como forma de lazer ordenada, regulada e diversificada, e o que chamamos turistificaçom, que supom umha exacerbaçom do próprio turismo, que passa a ser concebido como monocultura económica –ou quase– e tem implicaçons especialmente negativas em termos de exploraçom laboral, mercantilizaçom massiva dos tempos livres, gentrificaçom urbana e desumanizaçom das nossas cidades. Em conseqüência, e ao contrário do que se nos di nos meios de comunicaçom do sistema, nom ajuda a melhorar as condiçons sociolaborais nem económicas da maioria da populaçom afetada, como se vê em todos os casos de massificaçom turística a que temos assistido nos últimos anos. Som os grandes capitais investidores que, através da extraçom de valor com escasso retorno às populaçons afetadas, por diferentes vias, fam o verdadeiro negócio num setor já globalizado.

Processos de turistificaçom, próprios de economias dependentes

Se bem todas as economias nacionais contam com setores dedicados ao turismo, a sua exacerbaçom relativa em termos de peso no Produto Interno Bruto nacional é caraterística sobretodo de economias dependentes. Na grande maioria das economias nacionais do centro capitalista, o turismo nom vai além dos 5% em relaçom ao total do PIB. É o caso, para nos centrarmos no caso europeu, de França, Reino Unido, Alemanha, Suíça… que, ao mesmo tempo, mantenhem as mais elevadas percentagens de atividade industrial. Apesar da tendência descendente, todas essas economias tenhem ainda setores industriais bem acima dos 20% em relaçom ao PIB.

No extremo oposto, e sem sairmos da Europa, situam-se economias como a grega (18% de turismo e 15% de indústria) ou a albanesa (10% de turismo e 14% de indústria).

Existem também economias europeias que combinam umha forte atividade turística com umha atividade industrial sempre muito superior. É o caso da Catalunha (12% de turismo e 20% de indústria) ou mesmo de Portugal (14% de turismo e 22% de indústria).

O turístico é mais um entre os setores em que se manifesta o carácter desigual do desenvolvimento capitalista, com os grandes investidores sediados nos países do centro (Alemanha no caso da Europa) e as infraestruturas turísticas nos países periféricos, tanto europeus como do resto do mundo. As transferências de valor da periferia para o centro som garantidas por diferentes vias, como o endividamento estatal relativamente a organismos como o Banco Mundial que, com os seus planos de investimento no setor, favorece os grandes grupos económicos estrangeiros e evita o reinvestimento produtivo diversificado dos lucros nos países periféricos. Também a tributaçom em refúgios fiscais, especialmente das grandes agências online (tipo AirBnB, Booking, etc) e, em geral, dos fundos de investimento, permite a maximizaçom do lucro dos grandes capitais do setor. Mantém-se assi a posiçom dependente que os países periféricos tinham à partida.

E a Galiza?

No caso da Galiza, passamos de um turismo que representava 10% do PIB a inícios dos anos 90 para os quase 12% da atualidade. Poderíamos pensar que nom é assi tanto, mas de facto tem já um peso relativo desproporcionado se comparado com um setor estratégico para o desenvolvimento de qualquer país, como o industrial, que no mesmo período passou de 20% para os atuais 16% de peso no PIB galego.

Nom deve ser necessário insistir em que foi a atividade industrial autogerada, nas suas mais diversas formas (agroindustrial, tecnológica, de bens de produçom e de consumo…), a que protagonizou o desenvolvimento capitalista nos países centrais. Fôrom também os desenvolvimentos de fortes mercados internos que criárom consumidores em condiçons de se tornarem turistas. Daí que a existência de monoculturas ou economias demasiado orientadas para a atividade turística e outros serviços tenha limitadas possibilidades de sustentar ou desenvolver economias como a nossa.

Porém, a turistificaçom si pode servir, está a servir já, para que determinados setores capitalistas, especialmente financeiros, podam explorar novas bolhas que lhes devolvam, durante algum tempo, a lucratividade perdida na última crise.

É esse o modelo que explica o “boom turístico” a que assistimos, também na Galiza, e que se carateriza por ter escassíssimos efeitos benéficos e trazer muitos prejuízos para a maioria, como já estamos a ver…

A exploraçom aumenta e o desemprego mantém-se elevado

A precariedade ou sobre-exploraçom da força de trabalho é umha caraterística evidente no setor turístico, tal como tenhem denunciado todos os sindicatos e qualquer trabalhador/a do setor já experimentou. Havendo tanto desemprego, essa caraterística vai em aumento, pois “sobra” a mao de obra. Como exemplo, podemos referir que no período entre 2008 e 2016, no setor do alojamento turístico galego, os salários caírom numha percentagem de 19%.

Além dos baixos salários, verifica-se umha grande dificuldade para a defesa dos direitos do pessoal assalariado, abundante emprego temporário e elevada rotaçom laboral. A extrema fraqueza e a fragmentaçom das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços dificulta a sindicaçom, o cumprimento dos convénios coletivos e a melhoria dos mesmos.

Novamente, a Galiza exemplifica como o desemprego nom tem melhorado nas áreas de turismo mais massificado. No caso paradigmático de Compostela (87% de emprego no setor serviços), é a terceira cidade galega com mais desemprego (15% em 2016).

Gentrificaçom, especulaçom e privatizaçons

O turismo costuma vir da mao de megaoperaçons de gentrificaçom urbanística, que começam com a degradaçom de bairros inteiros, para a sua desvalorizaçom, prévia ao correspondente esvaziamento para a compra a preço de saldo por fundos de investimento interessados na especulaçom imobiliária. A vizinhança e o comércio tradicional som expulsos e substituídos por negócios exclusivos. Isso nom melhora as expetativas económicas da zona, mas si aumenta os preços para o consumo da vizinhança, que perde assi poder de compra.

Novamente, Compostela é um bom exemplo do que afirmamos. O concelho tem quase 100 mil habitantes, mas a sua zona velha, epicentro de umha intensiva atividade turistificadora, é habitada por umhas 5 mil pessoas, enquanto o seu comércio tradicional está em claro processo de substituiçom por um outro ligado à atividade turística, gerando novas rendas para as novas firmas proprietárias. O resultado é a expulsom de vizinhança e nom a melhoria das condiçons de habitabilidade nem comerciais da área.

Geralmente, as grandes superfícies comerciais venhem completar o esquema do que acaba por se converter em parque temático para um turismo massificado e despersonalizado.

Na Galiza, assistimos nos últimos anos a bons exemplos da entrega das estratégicas económicas de um turismo em alta à chamada “iniciativa privada”. É o caso dos subsídios públicos destinados ao chamado “Clúster Empresarial do Turismo da Galiza”, criado em 2013 e recetor de mais de 3 milhons de euros até 2016. No mesmo ano, vimos também a entrega de umha rede de 69 albergues públicos do Caminho de Santiago à multinacional espanhola ACS, presidida por Florentino Pérez. Isso porque o Governo autonómico, em maos do PP, resolveu que a Agência Galega do Turismo devia pôr em maos dos empresários a estratégica e o dinheiro público em matéria de atividade turística.

Já em 2017, a Junta aprovou a chamada “Estratégia de turismo da Galiza”, que prevê investir 240.500.000 de euros públicos no setor entre 2017 e 2020. Como já vimos noutros setores como a saúde ou a educaçom, a escusa de situar o turismo como “peça chave” da economia galega servirá para armar parcerias público-privadas em que o setor público paga e o privado leva o lucro, sem garantias de reinvestimentos noutros setores (tecnologia, indústria…) que, com umha visom global e de país, pudessem fortalecer e diversificar a economia galega.” 

Mercantilizaçom e degradaçom dos espaços, agressom à forma de vida e à cultura dos povos

A massificaçom turística, longe de significar umha riqueza para a maioria da populaçom, enriquece só um pequeno segmento capitalista que especula sem pudor com os espaços urbanos e suprime o tecido comercial local. Se a isso somarmos a incapacidade intrínseca de substituir o protagonismo da decadente indústria na criaçom de riqueza, o resultado é um país mais dependente e umha crescente precarizaçom das condiçons de emprego.

Porém, isso nom é todo. Como indicamos mais acima, as agressons do capitalismo costumam afetar todos os ámbitos da vida social e a própria natureza, mas a cultura tampouco escapa aos efeitos perniciosos da turistificaçom.

No caso da Galiza, observamos em qualquer festa ou celebraçom social o desembarco de “feiras medievais” montadas por empresas de serviços de capital espanhol, que disfarçam e uniformizam as nossas formas de relaçom e comércio. Vemos também como as franquícias ou representantes de grandes marcas multinacionais ocupam os melhores espaços e como os grandes centros comerciais ditam as pautas do ócio familiar. Em determinadas localidades, o desembarco massivo de turistas chega a ultrapassar o número de vizinhos e vizinhas, com umha massificaçom que torna dificilmente habitáveis algumhas vilas e cidades.

Doutra parte, espaços reconhecidos polo seu enorme valor ambiental e paisagístico, como o paradigmático caso da praia de Augas Santas, em Ribadeu, submetidos à estratégia de mercantilizaçom turística, sofrem umha acelerada deterioraçom pola visita de milhares de turistas cada dia, ao que devemos lembrar-nos de somar a destruiçom de grandes regions costeiras, pola descontrolada edificaçom de vivendas destinadas a turistas.

Enfrentamo-nos a umha verdadeira guerra cultural que quebra toda forma de solidariedade e nos reduz a consumidores sem critério, ou com o único critério que a moda propagandística imponha cada ano a essa fantasmagórica “classe média” que cada um/ha de nós aspiramos a representar.

O fomento de padrons de comportamento individualistas, consumistas e patriarcais, empapados no caso galego com a espanholizaçom obrigatória, acompanha a atividade turística massificada. Todo isso fai parte da “cultura de massas” que sempre acompanhou o capitalismo, desumanizadora e inimiga das identidades nacionais e de classe. Porém, o fenómeno tem cada vez perfis mais agressivos, porque a continuidade do processo de acumulaçom de capital é também mais difícil.

Que fazer?

Alguém poderá pensar que estamos a exagerar, ou que em qualquer caso a ameaça da turistificaçom representa um mal menor: “Ainda que seja precário, polo menos cria emprego!”. A realidade é que o capital está a aproveitar o desemprego massivo, especialmente entre as trabalhadoras e trabalhadores mais novos, para impor um modelo de intensa exploraçom da força de trabalho, o único que permite à burguesia manter a sua posiçom hegemónica numha decadente estrutura de classes capitalista como a atual.

A situaçom só poderá piorar no futuro, se nom houver umha reaçom social por parte dos diversos setores afetados: A vizinhança das zonas alvo da turistificaçom, os trabalhadores e trabalhadoras submetidas a condiçons de extrema exploraçom, coletivos ambientalistas e empenhados na defesa da identidade cultural, nacional e de classse.

É imprescindível observarmos e analisarmos a realidade do problema sem os anteolhos dos grandes meios de comunicaçom. Esses meios só servem aos seus proprietários privados, o mesmo grande capital que protagoniza a estratégia turistificadora, gentrificadora e uniformizadora.

Devemos situar o combate contra o turismo de massas no quadro de um desenvolvimento alternativo ao que o capital nos impom, baseado na nossa soberania e nas atividades verdadeiramente fortalecedoras de umha economia com protagonismo público e da classe trabalhadora. Para isso, é imprescindível contarmos com um Estado próprio, com hegemonia da classe trabalhadora e que proteja e desenvolva umha indústria diversificada, um setor agroindustrial moderno e umha tecnologia avançada ao serviço da maioria social. Umha economia que sirva às necessidades sociais e nom ao lucro privado, que permita reduzir a jornada laboral para que trabalhemos todas e todos, eliminando o segmento parasitário que hoje representa a burguesia colaboracionista que ocupa os espaços de poder desta Galiza autonómica e dependente.

A defesa e valorizaçom do território contra a sua degradaçom, a coesom dos bairros contra a desagregaçom especuladora, a recuperaçom do seu pulso cultural, popular e de classe só serám possíveis com umha estratégia que devolva ao tempo de lazer a racionalidade do enriquecimento humano e da participaçom na vida comunitária, contra a da desumanizaçom capitalista que a turistificaçom selvagem ajuda a espalhar sem controlo.

Cada qual no seu lugar, organizadamente, para combatermos a mercantilizaçom e o empobrecimento das nossas vidas.

Só assi poderemos construir um futuro digno de ser vivido.

Galiza em Rede. Galiza, agosto de 2018.

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